Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Quem é Vítor Duarte Marceneiro.... Raízes de Marceneiro

VÍTOR  DUARTE MARCENEIRO (a tradição impôs o apelido Marceneiro), entrecruza-se com o Fado, através da sua descendência.  Filho de Alfredo Duarte Júnior, o fadista bailarino, e neto de uma das figuras nucleares do Fado, Alfredo Marceneiro, Vítor Duarte cedo se habitua aos percursos e convívios fadistas.

Fica órfão de mãe dos 5 para os 6 anos e passa a viver com os avós paternos. Aos sábados com 10 anos, já acompanhava o avô ou o pai aos espaços fadistas, e as "passeatas" por Alfama ou Bairro Alto. Faz o Curso Industrial e seguidamente o Curso de Engº. Técnico de Máquinas, que exerceu no ramo automóvel. Porém, afirma, nunca se sentiu pressionado para seguir qualquer carreira no Fado. Só aos 20 anos, este filho do bairro de Alcântara, cantou pela primeira vez em público. Teve ainda uma curta experiência no Restaurante Típico Luso ao lado de Tristão da Silva, Augusta Ermida e Plínio Sérgio, e gravou com o avô e o pai para duas discográficas. Seguirá aliás uma outra carreira profissional que abandonará, após o serviço militar,  para se dedicar ao cinema e à televisão. Será produtor executivo na Cinegra até Abril de 1974. Como independente, foi produtor e realizador do jornal cinematográfico "Bric à Brac" e de vários documentários e filmes de publicidade. Em 1975 integra os quadros do Instituto Português de Cinema como Chefe de Produção, mais tarde exerce em simultâneo as funções de operador de som, e posteriormente assume a direcção de som, aliás como bolseiro licenciou-se em engenharia de som. Foi ainda realizador de documentários e de filmes de publicidade.

Correspondente das televisões CBS e ARD, em 1979 foi produtor e director de som do programa da RTP 1, "Marceneiro - Três Gerações de Fado", o último registo em filme de Alfredo Marceneiro. Descobre assim  o  interesse  por uma outra faceta a cantar, em vários espectáculos e programas de televisão, até em 1995 editar o seu primeiro livro: "Recordar Alfredo Marceneiro", a que se seguiu em 2001, "Marceneiro - Os Fados que ele cantou" e,   em   2004,   "Recordar   Hermínia   Silva".

Foi produtor de várias gravações fonográficas quer do avô quer do pai.

Realiza espectáculos/conferências áudio-visuais, sobre temas e figuras fadistas, nomeadamente o seu avô, mas também Hermínia Silva, Berta Cardoso, Manuel de Almeida, entre outros.

Actualmente está empenhado em colocar Lisboa no Guíness Book como "a cidade mais cantada no mundo". No âmbito deste seu intento mantém activo o blogue: http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt onde divulga as suas investigações, nomeadamente fixando biografias de vários fadistas, poetas e músicos de fado, para além de referenciar as diferentes temáticas fadistas.

Em 2008 foi galardoado pela Fundação Amália Rodrigues com o prémio  ENSAIO/DIVULGAÇÃO

 

 

 

  RAÍZES DE MARCENEIRO…. pôem

 

FADO EM MOVIMENTO 

                                                          

FADO EM MOVIMENTO é um espectáculo de som, animação de imagem e canto ao vivo, onde se recordam grandes nomes do Fado, passando em revista a sua biografia, ao mesmo tempo que se projectam fotografias de arquivo, excertos sonoros de filmes em que participaram, capas de discos, cartazes de espectáculos, etc., e se cantam fados do seu repertório e outros, por vozes conhecidas do nosso melhor meio fadista, acompanhados por guitarristas e violistas. 

A concepção, locução e parte do canto são feitos por Vítor Duarte “Marceneiro” (neto de Alfredo Marceneiro), investigador, conferencista e crítico. É membro da Direcção da A.P.A.F, e autor de dois livros monográficos sobre o seu avô, e um sobre Hermína Silva, tendo em  preparação,  um outro  sobre Amália Rodrigues.

É ainda autor do projecto “Lisboa a cidade mais cantada do mundo” que o levou a construir um blog na internet (http://lisboanoguiness.blog.sapo.pt) , que teve o reconhecimento de cerca de 300.000 leitores em pouco mais de um ano, que a par de outros trabalhos e publicações, veio contribuir para que tivesse sido  galardoado com o prémio “Ensaio/Divulgação”, pelo júri dos Prémios da Gala Amália Rodrigues 2008.

As vozes convidadas são de reconhecido mérito, escolhidas entre contemporâneos das figuras celebradas e jovens valores, normalmente triunfadores das mais recentes edições da Grande Noite do Fado ou outros certames do género.

Vítor Duarte, comenta as carreiras das figuras tratadas e as imagens que se vão projectando, em diálogo informal e descontraído com o público, num ecrã onde se projectam as imagens animadas e legendadas, em diaporama. O espectáculo vai alternando sequências de imagens, comentários e histórias curiosas, com a execução de fados pelo próprio e pelos outros intervenientes, incluindo-se uma guitarrada para enaltecer o papel da guitarra portuguesa, já que os músicos são profissionais da melhor qualidade.

O espectáculo está organizado por módulos, podendo incidir apenas sobre uma figura, ou duas, ou três, ou todas, dependendo do tempo disponível, a acordar com a entidade contratante, podendo ir de uma a mais horas e incluir um número variável de fados cantados pelos intérpretes presentes, assim como pode ser programada uma sequência de espectáculos com intervalos regulares, todos de conteúdo diferente.

Normalmente o espectáculo incluindo um curto intervalo tem a duração de cerca de 2 horas, mas quase sempre o público reage muito bem à metodologia e o espectáculo acaba por se  prolongar sempre um pouco mais.

Resumindo, os elementos intervenientes,  são,   Vítor Duarte e outro fadista, e mais 2 vozes femininas, acompanhados musicalmente por um guitarra e um viola.

Este espectáculo/conferência, já foi levado a efeito em várias instituições, como MUSEU DO FADO, MUSEU DA MÚSICA, FORUM CML ALMADA, CINE-TEATRO DE BENAVENTE, assim como em salas de prestigio, do  PORTO, BRAGA, ALMEIRIM, LAGOS, SAGRES,  CADAVAL, CAMARA MUNICIPAL DA AMADORA, CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS - ONTÁRIO CANADÁ,   e ainda várias colectividades em todo país.

 

Para mais informações contacte: marceneiro@sapo.pt ou pelo telefone 965240817



publicado por Vítor Marceneiro às 19:58
link do post | comentar | ver comentários (1) |

O Autor... Prefácio do livro Recordar Marceneiro-O Mosteiro dos Duartes

VÍTOR  DUARTE MARCENEIRO (a tradição impôs o apelido Marceneiro), entrecruza-se com o Fado, através da sua descendência.  Filho de Alfredo Duarte Júnior, o fadista bailarino, e neto de uma das figuras nucleares do Fado, Alfredo Marceneiro, Vítor Duarte cedo se habitua aos percursos e convívios fadistas.

Fica órfão de mãe dos 5 para os 6 anos e passa a viver com os avós paternos. Aos sábados com 10 anos, já acompanhava o avô ou o pai aos espaços fadistas, e as "passeatas" por Alfama ou Bairro Alto. Porém, afirma, nunca se sentiu pressionado para seguir qualquer carreira no Fado. Só aos 20 anos, este filho do bairro de Alcântara, cantou pela primeira vez em público. Teve ainda uma curta experiência no Restaurante Típico Luso ao lado de Tristão da Silva, Augusta Ermida e Plínio Sérgio, e gravou com o avô e o pai para duas discográficas. Seguirá aliás uma outra carreira profissional que abandonará, após o serviço militar,  para se dedicar ao cinema e à televisão. Será produtor executivo na Cinegra até Abril de 1974. Como independente, foi produtor e realizador do jornal cinematográfico "Bric à Brac" e de vários documentários e filmes de publicidade. Em 1975 integra os quadros do Instituto Português de Cinema como Chefe de Produção, mais tarde exerce em simultâneo as funções de operador de som, e posteriormente assume a direcção de som, aliás como bolseiro licenciou-se em engenharia de som. Foi ainda realizador de documentários e de filmes de publicidade.

Correspondente das televisões CBS e ARD, em 1979 foi produtor e director de som do programa da RTP 1, "Marceneiro - Três Gerações de Fado", o último registo em filme de Alfredo Marceneiro. Descobre assim  o  interesse  por uma outra faceta a cantar, em vários espectáculos e programas de televisão, até em 1995 editar o seu primeiro livro: "Recordar Alfredo Marceneiro", a que se seguiu em 2001, "Marceneiro - Os Fados que ele cantou" e,   em   2004,   "Recordar   Hermínia   Silva".

Realiza várias conferências sobre temas e figuras fadistas, nomeadamente o seu avô, mas também Hermínia Silva, Berta Cardoso, Manuel de Almeida, entre outros.

Actualmente está empenhado em colocar Lisboa no Guíness Book como "a cidade mais cantada no mundo". No âmbito deste seu intento mantém activo o blogue: http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt onde divulga as suas investigações, nomeadamente fixando biografias de vários fadistas, poetas e músicos de fado, para além de referenciar as diferentes temáticas fadistas.

Em 2008 foi galardoado pela Fundação Amália Rodrigues com o prémio  ENSAIO/DIVULGAÇÃO

  


 

Prefácio Livro Recordar Alfredo Marceneiro

 

O MOSTEIRO DOS DUARTES

 

Raro será o português que se não tenha interrogado acerca do fascínio que o Fado exerce sobre si. Outro tanto acontecerá com os estrangeiros que assistam a essa entrega sublime de um cantador gemebundo, acolitado por uma parelha de guitarras, que faz ouvir uma melopeia nostálgica, que nos devora a alma. Saiba-se que a guitarra é um feixe de cordas, que tangidas sobre um ataúde sem cabeceira faz chorar infantas das espanhas mesmo em festas de núpcias, quer por angústia, quer por boa-memória.

E se cada um busca as suas respostas e os eruditos se embrenham na demanda das origens deste planger balsâmico, eu quedo-me pelo meu tempo e, mais modestamente, pelos fadistas que acontecem.

Se o acalanto se escuta inconscientemente desde que uma mãe entende embalar carinhosamente um filho para que adormeça e ninguém lhe escritura as notas musicais improvisadas ou o compasso da ladainha sonolento, não me dá cuidado conhecer que génios e magos se combinaram para criar uma toada dolente que me mantém desperto e acaricia delicadamente os sentidos. A cadência sei que se casa com o pulsar de um coração dorido de muitos desgostos mas esperançado em ressurreições.

Há sempre um poeta apaixonado em contá-las numa linguagem rimada. E quem oficie mergulhado no seu próprio íntimo, numa treva densa onde só o penitente sabe onde encontrar a sua pedra filosofal, os dedos cegos acordando ecos nas guitarras, o Senhor das Queixas ditando com fervor outra oração a exorcismar mal--nenhum.

Que confissão sacrílega tem sido esta para vos dizer, no final, ao que venho?

Pouca coisa para o muito que ides ler sobre os "Duartes". Na verdade, para atravessar os portais de um templo há que se persignar, tomar água benta de uma lágrima de compunção e murmurar a convencional saudação. Assim fiz, na certeza que cruzava os umbrais de uma "Catedral". Não importa o altar a que me dirigi para que a atitude tivesse sido diferente. Está feito!

Se alguém entendeu todo este ritual foi Alfredo Duarte, o Marceneiro, por ofício.

Escutando-o a cumprir seu culto, senti-me ungido de graça em

várias ocasiões. Mas não me cabe a mim fazer o responso a um Homem que era a resposta para todo o encantamento do Fado. Quem, vos dirá com correcção será um pupilo dessa linhagem que sente a responsabilidade, legítima aliás, de contar como foi belo adormecer e acordar na toada de um terço de harmoniosos lamentos; como sucedeu singular e deslumbrante a aventura fantástica de conviver com o castiço beato; como foi trágico depor-lhe sobre as mãos de expressão já ausente as últimas violetas e acompanhá-lo à entrada de uma madrugada fria e sem regresso.

Todos estes atributos que o contador de histórias reuniu para nós, fá-lo-iam retomar a peregrinação interrompida do avô e cantar, também, porque herdou timbre de fácil comunicação. Mas antes quer ditar para um missal novo a mística de todos os dias: o legado de Alfredo Marceneiro, muito mais que colchetes de oiro, a generosa estilização da nossa cantiga de rua, género que o distinguiu, nobilitou e deixou para usufruto de todos os seus admiradores.

Depois de ler os assentos de Vítor Duarte, o neto do Marceneiro, o Fado será mais seu, caro leitor, e entendê-lo-á como o dialecto íntimo que os lusitanos comunicam em louvor da alma nacional que nos coube.

Conheci o Vítor em 61 teria ele apenas 16 anos. Ultimávamos, então, a decoração do Timpanas, em Alcântara, para uma abertura arrastada para Setembro.

Apesar da pouca idade ele mostrava bem saber o que queria e, sem recorrer a quaisquer recomendações tão ajeito desta sociedade, propôs-se ser o "fotógrafo" da Casa. Eu não conhecia nada dessa actividade ou resultados de negócio, mas agradava-me tê-lo como visita frequente, de tal forma me impressionava o seu interesse pelo fado - que considerei como bom auspício a anular os receios de desastre no empreendimento.

Só mais tarde soube que se tratava do neto querido do ancião Mestre. Registava em película virgem dramas humanos em forma de imagem, instantâneos de saudade súbita e lassidões sem tempo de retorno, tudo porque não sabia ainda arrumar na garganta as coisas que havia de contar um dia em canções de tormento e amor. O Vítor movia-se no Timpanas como se fosse um de nós, eu ou meu irmão. Escutávamos-lhe as opiniões e ganhámos-lhe até afeição, fazendo-o eu, confidente de outras empresas. Uma das qualidades que lhe apreciava era a dedicação ao Avô que ele, a olhos vistos, lhe retribuía com muito carinho, sendo poucas as noites em que o idoso boémio o não vinha visitar, lá para as tantas.

Em muito serão se juntaram as três gerações, quando o Alfredo Duarte Júnior aparecia com o seu grupo e o malogrado irmão, o Carlos, vinha da casa ao lado, a Cesária, cheirar a nossa sala composta. Acrescentava-se o poeta João Linhares Barbosa e o Fado, nessa noite, não tinha outra morada que não fosse a mesa onde apostavam forte os seus reais talentos.

Por brincadeira o Vítor imitava respeitosamente o Avô aproveitando a sua bênção e satisfação e, assim, se revelou um lídimo representante da casa dos "Duartes". Contudo, noutras interpretações, não precisava plagiar estilos e desfiava, sílaba a sílaba, o mais bem acentuado dos poemas numa cadência e inflexões perfeitas. Ia a todos os tércios, como na gíria se dizia, não sei se bem se mal.

Surpreendia-me que ele não ousasse uma carreira profissional quando toda a alquimia do fado lhe era tão familiar, ou melhor, lhe estava nos ossos.

Em trinta anos de muitas e agitadas ocorrências não perdi de vista este meu amigo.

Continuou celebrando o Avô como um purpurado e não cuidava de se afirmar, ele próprio, não enjeitando o dom congénito mas mostrando a sua autoridade em saber partir as palavras, saboreá-las, intencioná-las, fazendo-as luzir e resplandecer no destino da mensagem dos versos que dizia. Mas agora, escreve.

Escreve como quem transmite o testemunho numa estafeta sem fim. Tudo quanto a sua lembrança guarda de muitas jornadas e serões com o Avô, ele fixa em letra de forma para a posteridade.

Se os prosélitos do Fado entenderem devotar uma longa noite à sua bandeira, que seja o 25 de Fevereiro pois, sem dúvida, no ano de 1891 nasceu o seu mais louvado príncipe, tão igual ao Povo que com ele se confundiu amavelmente.

Deste universo descrito e cujo epílogo conhecem, bem podem aceitar que a prosa veio do coração de Vítor Duarte e vale por isso.

rui forjaz 25/03/95 (*)

 

Rui Forjaz era filho do dono do Timpanas, tinhamos um carinho muito especial um pelo outro, deu-me a honra e a alegria de escrever este prefácio.

Infelizmente antes do livro sair teve um AVC muito grave, mas ainda consegui  mostar-lhe as provas do livro, mas o destino não permitiu que estivesse no lançamento do livro . Obrigado Rui,  estejas onde estiveres até sempre.

 



publicado por Vítor Marceneiro às 18:30
link do post | comentar |

Sábado, 27 de Junho de 2009
Origens

Seus pais, Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, eram ambos naturais do Cadaval, descendentes de duas conhecidas famílias da região, os Coelho e os Duarte, mas gente humilde.

Amigos e companheiros de brincadeiras desde crianças atingiram a idade adolescente com a amizade transformada em amor. As perspectivas de futuro também nessa altura eram difíceis na aldeia, pelo que decidiram partir para Lisboa à procura de melhores condições de vida. Corria o ano de 1890. Gertrudes já trazia no seu ventre a semente do seu amor e mal chegam à capital casa com Rodrigo na Igreja de Santa Isabel, recebendo dos lábios do padre Santos Farinha a bênção matrimonial.

Rodrigo Duarte era mestre de corte de calçado, tendo arranjado colocação numa sapataria da Rua da Madalena e graças a esse salário consegue alugar uma pequena casa na freguesia de Santa Isabel, num prédio da Travessa de Santa Quitéria. Hoje já não existe: foi demolido para abertura da Avenida Álvares Cabral.

E foi nessa casa que nasceu para o mundo o primeiro filho do casal Duarte, no dia 29 de Fevereiro de 1888,, mas só foi possível registá-lo, por falta de posse,  e foi asiim que lhe  foi dado, na pia baptismal, o nome de ALFREDO RODRIGO DUARTE, pelo mesmo pároco que havia unido em casamento seus pais, mas três anos depois em 1891, como não era ano bissexto tiveram que adoptar a data de 25, e foi assim que nos registos oficiais consta que nasceu a 25 de Fevereiro de 1891.

Com o acréscimo de responsabilidades e um novo incentivo na sua vida, Rodrigo Duarte pensou em melhorar a sua situação económica e resolveu assim jogar a sua sorte estabelecendo-se por conta própria, com uma oficina de calçado na Rua de São Bento.

A vida decorreu normalmente para a família Duarte, que viu aumentar o seu lar com o nascimento de mais três filhos: o Júlio — que foi também fadista de nomeada —, o Álvaro e a Júlia, todos igualmente baptizados pelo bondoso padre Santos Farinha, na Igreja de Santa Isabel.

O pequeno Alfredo frequenta a escola primária, tendo desde cedo demonstrado uma especial aptidão para a leitura e gramática, repartindo a sua infância pelas brincadeiras no Jardim da Praça das Flores e  ajudando seu pai na oficina, durante as férias escolares.

No carnaval quando as cegadas (representações teatrais populares) saíam para a rua, deliciava-se a ouvir os descantes e seguia alegremente as exibições dos actores de rua nas suas digressões pelo bairro, decorando os versos que ouvia. Chegado a casa, logo seus pais se transformavam em plateia, ouvindo com profundo deleite o génio do pequeno Alfredo.

O seu gosto pelo canto é influenciado por sua mãe que, nas descamisadas, nas romarias e nos bailaricos lá da terra, cantava que era uma delícia. No entanto, quer seu pai — que tinha pertencido à banda musical do Cadaval —, quer seu avô materno, José Coelho,  transmitiram-lhe fortes influências, especialmente o segundo, que tocava guitarra e cantava fados de improviso.

Já homem feito, sempre que falava de sua mãe, recordava o seu cantar enquanto fazia a lide caseira. De entre os muitos versos populares que a ouvia entoar, um dos  mais preferidos, rezava assim:

 

                                      Nasci nas praias do Mar

                                      Ás fúrias do vento irado

                                     Tinha por berço, uma lancha

                                      Por lençol, o Céu estrelado

 

Rodrigo Duarte apercebeu-se de que o seu pequeno Alfredo tinha intuição para a música e queria que o filho aprendesse os rudimentos musicais.

Infelizmente, não viveu o suficiente para ver satisfeitos os seus desejos, porquanto aos 38 anos de idade a morte o ceifou, arrancando-o brutalmente do convívio dos seus entes queridos.

Foi o padre Santos Farinha quem, apesar da  avançada idade, integrou o cortejo, a pé (como era hábito na época), que acompanhou o corpo do desditoso Rodrigo Duarte à sua última morada, o cemitério dos Prazeres, revelando a grande amizade que nutria pela família Duarte.

Aquele sarcedote, que seguia de perto o desabrochar do pequeno Alfredo, chegou a sugerir a seus pais, o envio deste para o seminário, pois via no jovem grandes capacidades.

Decorria o ano de 1905 e o pequeno Alfredo, então com 13 anos, profundamente abalado pela perda do pai, viu-se forçado a abandonar os estudos para começar a ganhar a vida, ajudando assim sua mãe a criar os seus irmãos mais jovens. A ida para o seminário ficava também fora de hipótese.

Infelizmente não chegou a haver condições de ter ficado com uma foto do pai.

 

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

 

                   

 


tags:

publicado por Vítor Marceneiro às 00:02
link do post | comentar |

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
Alfredo Marceneiro... A Adolescência

 Arranjou o seu primeiro emprego como aprendiz de encadernador numa oficina na Rua da Trindade, com o salário inicial de quatro vinténs. Mas por pouco tempo auferiu este vencimento pois os patrões, por indicação do Mestre Paulino, gostando da sua dedicação logo o aumentaram para um tostão, o que na época, e para um rapaz da sua idade, era um bom salário.

No entanto, Alfredo não permaneceu muito tempo como aprendiz de encadernador, porque aquele ofício tinha para ele um grande inconveniente: a saída ás 9 horas da noite (naquela época os operários trabalhavam 12 horas diárias), não lhe permitia dedicar-se ao seu grande sonho de ser actor e poder entrar numa das muitas cegadas carnavalescas. Cultivando o gosto de representar, continua a seguir atentamente as actuações dos actores de rua e é assim que, simultaneamente, Alfredo toma mais contacto com o Fado, pois nas cegadas os actores interpretam o seu papel cantando o tema da peça ao som da guitarra. Alfredo haveria de tomar parte numa, custasse o que custasse.

Júlio Janota, um fadista improvisador com quem tomou conhecimento e que era mestre na profissão de marceneiro, aconselhou-o a seguir o mesmo ofício, o que lhe permitiria auferir melhor salário e sair antes do pôr do sol, arranjando-lhe colocação como seu aprendiz numa oficina em Campo de Ourique. Foi assim que Alfredo Duarte trocou a sua profissão de encadernador pela de marceneiro, ofício que ficou ligado para sempre á sua pessoa e ao seu nome.

Nesse tempo, para as camadas menos privilegiadas, os bailes populares eram decerto a grande diversão, organizados ao ar livres em jardins e verbenas. É nesses bailes, dos quais é assíduo frequentador, que se inicia a cantar fados, começando desde logo a criar nome entre a rapaziada da sua época. Graças a essa sua genial capacidade passa a ser solicitado para cantar em festas de caridade, também muito usuais na época, como forma de solidariedade para com os mais desafortunados.

 

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

 


música: A Freguesia Video-Clip

publicado por Vítor Marceneiro às 23:50
link do post | comentar | ver comentários (1) |

Alfredo Marceneiro... As cégadas

 As cegadas eram a maior diversão popular da época e até meados de 1926 constituíram a febre máxima da gente humilde

Em 1908, com dezassete anos, consegue almejar o seu grande sonho: sair numa cegada.

O papel que lhe é dado não é de grande destaque, pois os principais personagens são entregues aos mais experientes.

Como nas cegadas não era permitido a actuação de mulheres, este seu primeiro papel é de "travesti". Esta cegada foi adaptada de um filme mudo com o título " O Duque de Guise", pelo poeta popular Henrique Lajeosa, fazendo Alfredo o papel de amante do Duque.

Noutras cegadas entrou, mas a que mais o celebrizou, na época foi da autoria do grande poeta popular Henrique Rêgo, intitulada "Luz e Sapiência", que tinha como conceito poético um despique entre dois personagens: um Toureiro e um poeta — dois tipos diferentes de arte —, em que o poeta compara o matador de touros a um simples magarefe. No papel do poeta, Alfredo atingiu grande êxito, emocionando todos quantos o ouviram. É de realçar que, até ao fim dos seus dias, Alfredo Duarte ainda era capaz de recitar, não só todo o seu papel nesta cegada, como o dos outros intervenientes.

Alfredo teve sempre o gosto pela arte de representar e gostaria de ter sido actor profissional, mas a vida reservou-lhe outro destino. No entanto, ainda chegou a pisar um palco de teatro, só que ligado ao Fado, através da sua participação na opereta "História do Fado", que teve lugar no Coliseu dos Recreios, contracenando com Beatriz Costa e Vasco Santana.

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

 

 



publicado por Vítor Marceneiro às 23:40
link do post | comentar |

Os primeiros passos no Fado

A primeira vez que Alfredo vai ouvir cantar o fado,  em recinto adequado, foi na Rua do Poço dos Negros, no Beco dos Carrascos, onde actuavam conhecidos fadistas de então que, por serem gente de trabalho, cantavam por amor à arte. Os acompanhamentos musicais nessa época eram feitos  ao piano,  com bandolim, ou com guitarras.

Mas foi no «14» do Largo do Rato, antiga casa de jogo e que o dono transformou em «cabaret» quando os jogos de azar foram proibidos, que o jovem Alfredo começou a ser mais conhecido no meio fadista, sendo frequentemente convidado a cantar alguns «fadinhos», cujos versos ele mesmo improvisava. Outros versos que também cantava, letras de qualidade literária e poética muito fracas, eram adquiridos nos quiosques pelo preço de um vintém.

Aqui travou conhecimento com alguns dos poetas populares e grandes fadistas de nomeada daquela época, nomeadamente, o Britinho, estucador, o Soares, do Intendente, o Júlio Proença, estofador, o João Mulato, o Chico Viana, o Jorge, caldeireiro, o Fernando Teles e tantos outros, todos peritos de Fado, que não tardaram em ver no jovem Alfredo um verdadeiro fadista. Como manifestação desse reconhecimento começaram a dar-lhe algumas das suas criações poéticas para que ele as cantasse.

O fado era uma canção de revolta e/ou de amor. Era a história do operário que ficava sem uma perna, sem um braço, ou que era despedido e ficava na miséria, era a história da rapariga que vinha do campo e se perdia nas vielas, era a história do órfão abandonado. Era também a história do amor inflamado pela esperança ou pela desilusão.

É certo que havia letras de fados bastante «lamechas», mas Alfredo tinha a intuição natural de saber escolher de entre os melhores poemas que os poetas da altura escreviam, utilizando sempre o seu dom de bem-dizer e de correctamente dividir as orações gramaticais, o que decerto contribuiu, a par com o seu estilo musical, para a sua enorme popularidade.

As deambulações pelos retiros de Fado continuam e certo dia foi convidado para uma «patuscada» no Carioca da Trindade, mais conhecido por "Coimbra", situado no Largo da Abegoaria, hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro. Alfredo cantou e foi aplaudido com bastante entusiasmo, tendo havido alguém que, quando ele cantou o "Fado Dois Tons", com invulgar sentimento, não resistiu a ir abraçá-lo e, com os olhos rasos de lágrimas, apresentando-se, disse:

— Você não me conhece, mas de hoje em diante faço questão de ser seu amigo, pois comoveu-me profundamente ouvi-lo cantar. Chamo-me Manuel Rêgo, sou poeta, escrevo letras para fado e terei muito gosto em dar-lhe alguns dos meus poemas.

Assim começou uma amizade que durou anos, tendo Manuel Rêgo escrito para Alfredo Duarte alguns poemas para o seu repertório.

Quando Manuel Rêgo adoeceu, logo Alfredo, com outros elementos, lhe organizou uma festa de solidariedade, como homenagem ao poeta e amigo.

E num dia, que nunca mais esqueceu, disseram-lhe que o seu amigo Manuel Rêgo tinha falecido, vítima de uma «galopante». Sucumbido com a notícia, que lhe parecia inacreditável, Alfredo ficou de tal forma sentido que durante dois dias não saiu de casa.

Quando voltou à oficina, decidiu fazer uma cruz em madeira e foi ao cemitério colocá-la na campa onde jazia o amigo. Era uma homenagem singela, mas não a última pois continuou pela vida fora homenageando-o ao cantar os seus versos e, acima de tudo, mantendo-o bem vivo na sua memória, tal como vezes sem conta o referiu.

Eis o exemplo de um  de fado, considerado patriótico, mas do género do que se escrevia após a primeira Grande Guerra Mundial.

 

" ASSOMO DA RAÇA "

 

Enquanto o Mundo, cobarde,

Precipita com rancor

Numa trágica odisseia,

Na escola, ao cair da tarde

O velhinho professor

Fala aos rapazes da aldeia!

 

«Sabeis vós o que é a guerra,

«Essa hecatombe terrível

«De que fala todo o Mundo?

«É ver os homens, na terra,

«Em luta medonha, horrível,

«Num ódio torvo e profundo!

 

«Vai-se p´ra a guerra contente,

«Patriotismo exaltado

«Na fé baixa da vingança!

«Mas, regressa-se descrente,

«Cego, doido ou mutilado,

«Velho, até, se foi criança...

«Contra a guerra e contra tudo

«O que no mundo a consente!

 

Brada o professor por fim;

Mas o CHICO miúdo,

Uns quatro palmos de gente

Levantou-se e disse assim:

 

«Seja a Guerra obra do mal,

«Duro flagelo, não nego,

«Diga-se o que se disser...

«Se alguém quiser Portugal

«Fique mutilado ou cego

«Eu tenho de defender!

 

 

E o gesto desse rapaz,

Que oito séculos de História

Obrigavam a falar,

Mostrou bem do que é capaz

O Povo de maior Glória,

LIVRE NA TERRA E NO MAR

 

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”



publicado por Vítor Marceneiro às 23:20
link do post | comentar |

A Família

Entretanto, os seus irmãos casam e organizam as suas vidas. Alfredo leva consigo sua mãe Gertrudes e aluga uma casa num típico pátio sito no Nº 49 da Rua da Páscoa, em Campo de Ourique — Freguesia de Santa Isabel —, casa onde viveu até ao último sopro da sua vida.

Por altura dos seus 22 anos, duma paixão pela jovem Aurora, filha de um mestre de ofício de marceneiro, nasce o seu primeiro filho. Em memória de seu saudoso pai, dá ao primogénito o nome de Rodrigo. Nunca cantou o Fado. Abriu na Calçada de Carriche um retiro com o nome de "Solar do Marceneiro", a sua profissão era mecânico de motos e bicicletas, tendo uma oficina sua em Campolide onde é hoje o restaurante Número Um.

De outra paixão, pouco duradoura, é novamente pai de um rapaz a quem dão o nome de Esmeraldo. Tinha a profissão de tipógrafo e chegou a cantar como amador em festas particulares.

 

Os filhos

Rodrigo Duarte

e

Esmeraldo Duarte

 

 

 

Numa festa a que vai cantar, na Fonte Santa, Alfredo conhece uma linda jovem chamada Judite. É então que decide constituir lar e desta união com Judite de Sousa Figueiredo, sua companheira até ao fim dos seus dias (tratava-a carinhosamente por "A minha querida "Ti Judite"), nascem os seus filhos Carlos, Alfredo e Aida.

  

                         Judite de Sousa Figueiredo Duarte"Ti Judite"

 

O Carlos cantou como amador e o Alfredo veio a ser profissional de Fado, tal como o pai, a Aida foi modista.

 

       Carlos Duarte                     Aida Duarte            Alfredo Duarte Jr.

 

O seu irmão Júlio Duarte, que também cantava o fado e era seu companheiro nas andanças fadistas, casou com uma jovem de seu nome Leonor Duarte, também fadista, a qual chegou a cantar num disco com o seu cunhado Alfredo. Os seus irmãos, quer a Júlia quer o Álvaro, nunca cantaram.

            Álvaro Duarte                                                Júlia Duarte

 

 

JULIO DUARTE

Como seu irmão Alfredo, Julio Duarte pertenceu a um núcleo de fadistas que sabiam ser fadistas, que cantava o Fado amando-o, merecendo o apreço do público e dos seus colegas.

Nasceu em Lisboa, na Freguesia de Santa Isabel, e é manufactor de calçado. Até casar viveu sempre com a mãe e os seus irmãos, tendo pelo irmão mais velho, o Alfredo, uma admiração muito especial, pois considerava-o como um pai.

Tinha apenas 14 anos quando começou a cantar o Fado, estreando-se no Centro Republicano Miguel Bombarda, sendo muito solicitado para actuar em academias de recreio, festas de caridade e actuou em quase todos os retiros da época,  como no antigo Teatro Étoile, da calçada da Estrela, fazendo números de variedades com a pequenina actriz Hortense de Castro.

Torna-se profissional em 1928. Cantou-o então, nas cervejarias Boémia, Cervejaria Jansen, Rosa Branca, Chagas, Vitória, Cafés Portugal, Sul-América, Anjos, Julio das Farturas, Solar da Alegria (quando da gerência. de Alberto Costa), Salão Artístico de Fados, teatros Capitólio e Joaquim d'Almeida, nos clubes Tauromáquico, Olímpia, Montanha, Patos, Alhambra, e nos. Cinemas Europa, Jardim-Cinema, Cine Paris e Royal. Percorreu as províncias, cantando nos te­atros de Évora, Barreiro, Seixal, Montijo. Setúbal, Torres Vedras, Malveira, Quinta do Anjo, Torres Novas, Caldas da Rainha, Mafra, Cadaval, Figueira da Foz, Abrigada, Cascais, Estoril, Moita, Parede, Paço d' Arcos, Alenquer, Feliteira, Merceana e Benavente.

Cantou nas casas fidalgas do Conde da Torre e Conde de Sabrosa, nas herdades do opulento lavrador Palha Blanco.

Tal como o seu irmão Alfredo, foi autor de várias músicas para Fados, “Combatentes”, “Crença”, “Fado da Paz”, “Fado da Aldeia” (gravado por Ercília Costa), “Fado Marcha”, “Lágrimas”, (gravado por Maria do Carmo), e ”Fado Luso”.

Da sua carreira de cantador, há uma tarde que Júlio Duarte gravou na memória, por assinalar um dos seus maiores êxitos. Foi em Vila Franca de Xira, no Retiro Botão de Rosa, onde cantou ao lado de Júlio Proença, Estanislau Cardoso e João Maria dos Anjos, com o acompanhamento do guitarrista e cantador Carlos Ramos e do violista  Armando Machado. Houve uma cena que ficou famosa nessa noite: encontravam-se presentes dois detractores do Fado, comba­tendo-o grosseiramente. Com toda a gente enervada, começaram, ele  os colegas, a cantar, sendo  aplaudidos pela assistência que enchia o salão, de tal forma que a barulhenta parelha foi obrigada a retirar-se, com os dois basbaques vexados e ven­cidos. Foi uma tarde de triunfal.

Finalmente,, Julio Duarte actuou  no Retiro da Severa, Solar da Alegria, Cafés Gimnasio, Luso e Mondego, Foi também muito solicitado para actuar na rádio, Emissora Nacional, Rádio Luso, Rádio Graça e Rádio Peninsular.

Cantou muitas vezes com o irmão, que só se profissionalizou mais tarde, embora tendo a fama que se sabe, mas já não assistiu a esse acontecimento, pois faleceu prematuramente.

Julio Duarte foi casado com uma fadista de renome nesses tempos, Leonor Duarte, de quem teve duas filhas,  Júlia e a Aida.

  

LEONOR DUARTE

Natural de Lisboa, foi esposa do cantador Júlio Duarte e cunhada de Alfredo Duarte “Marceneiro”

Dotada duma excelente voz e com uma excepcional dicção, dava tal senti­mento aos versos que cantava, aliada a uma excepcional dicção, que em bem pouco tempo impôs o seu nome do can­tadeira de Fado. Estreou-se a cantar no posto emissor de Abílio Nunes dos Santos e  agradou de pronto e de  tal modo, que foi imediatamente contratada para gra­var em disco os seguintes fados: «Os pequeninos», «A Pastora», «Fado Aida», «0 teu olhar», «Desgarrada de Amor» (com o cunhado Alfredo Duarte “Marceneiro” e «A morte da Pastora».

Foi autora da música do Fado Os Pequeninos, que teve um grande sucesso. Cantou várias vezes, por es­pecial deferência, no Solar da Alegria com o marido Júlio Duarte, (aquando da gerên­cia de Alberto Costa), em festas de beneficência, tendo tomado parte também em diversos espectáculos, quase sempre na companhia do marido ou do cunhado.

Da sua curta mas brilhante carreira como cantadeira de Fados, a noite que mais a emocionou foi a da sua despedida, em 20 de Agosto de 1932, que coincidiu com a festa artística de seu marido, no Café dos Anjos, em que o pú­blico lhe tributou uma calorosa e prolongada ovação que muito a sensibilizou.

Leonor Duarte abandonou a sua carreira para se dedicar exclusivamente á educação de suas filhas, Júlia e Aida. 

 

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

 



publicado por Vítor Marceneiro às 23:10
link do post | comentar |

Como surgiu o nome Alfredo Marceneiro

O jovem Alfredo fazia questão de andar sempre muito bem vestido, de fato, camisa muito bem engomada com o laço ao pescoço e calçando polainites de polimento. Desse seu aspecto elegante nasceu a alcunha de «Alfredo-Lulu» — Lulu era equivalente ao «Janota» dos dias de hoje. (Como se pode observar nas fotos inseridas)
Em meados de 1920, um grupo de fadistas decide organizar no recinto Clube Montanha, uma Festa de Homenagem a dois nomes grandes do fado de então: Alfredo Correeiro e José Bacalhau.
O poeta Manuel Soares, responsável pela organização do evento, não prescindiu de convidar Alfredo para fazer parte dele
No dia em que juntamente com o guitarrista José Marques, estavam a ultimar os detalhes para a composição dos cartazes de promoção da festa, chegaram à conclusão de que ambos desconheciam o apelido do Alfredo. Como acharam que «Lulu», como então ele era alcunhado, não seria o mais apropriado, decidiram por bem mandar imprimir os cartazes, anunciando em destaque "Alfredo MARCENEIRO", visto que esta era a sua profissão.
Os seguidores do Fado, que nunca perdiam a oportunidade de comparecerem a estes espectáculos, sentiram grande curiosidade em saber quem era aquele Alfredo Marceneiro, de quem nunca tinham ouvido falar e que tinha merecido tamanha evidência!
Assim não foi de admirar que rapidamente a lotação se tivesse esgotado.
Alfredo cantou, pondo tal ênfase na sua actuação, que no final foram para ele todas as honras da noite. Dos comentários a esse espectáculo saiu extraordinariamente prestigiado o seu nome.

                                                                                                       
 
  " O MARCENEIRO"
 
Com lídima expressão e voz sentida
Hei-de cumprir no Mundo a minha sorte
Alfredo Marceneiro toda a vida
Para cantar o fado até à morte.
 
            Orgulho-me de ser em toda a parte
            Português e fadista verdadeiro,
            Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
            Sou para toda a gente o Marceneiro.
 
Este apelido em mim, que pouco valho,
Da minha honestidade é forte indício.
Sou Marceneiro, sim, porque trabalho,
Marceneiro no fado e no ofício.
  
             Ao fado consagrei a vida inteira
             E há muito, por direito de conquista.
             Sou fadista, mas à minha maneira,
             À maneira melhor de ser fadista.
 
E se alguém duvidar crave uma espada
Sem dó numa guitarra para crer,
A alma da guitarra mutilada
Dentro da minha alma há-de gemer.
 
E foi assim que o Alfredo «Lulu» passou a ser para todos e, para sempre, conhecido por ALFREDO MARCENEIRO.
Mais tarde, o poeta Armando Neves escreveu um poema que lhe dedicou, ao qual deu o título: "O Marceneiro".
Estes versos com música de sua própria autoria foram o "seu Cartão de Visita", e passaram a ser tema obrigatório nas suas actuações.

 

Assim principiou a carreira de Alfredo Marceneiro, precisamente na altura em que o fado, saído dos cafés iluminados a gás (onde se ouvia ao piano, na voz de camareiras e faias), começava a impor-se no mundo do espectáculo. Ouvir então cantar a chamada canção nacional que, no entanto havia de manter-se nos retiros «fora de portas» e na garganta dos participantes das cegadas, em dias do Carnaval lisboeta, já não era uma perigosa aventura. É a partir daí que o fado, na sua forma estilizada, irá chegar ao teatro ligeiro e, mais tarde, ao cinema. Por outro lado, poetas como José Régio, Augusto Gil, António Botto ou Silva Tavares, encontram no próprio fado, inspiração para muitos dos seus versos. Aparecem novas vozes e, em breve, o fado passa a mostrar-se ao mundo, com foros de atracção internacional.

 

 © Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

      

 


música: O Marceneiro

publicado por Vítor Marceneiro às 23:00
link do post | comentar | ver comentários (2) |


sobre o autor

Origens

Adolescência

E o sonho concretizou-se

Os primeiros passos no fado

A família

Como surgiu "Alfredo Marceneiro"

Como o fado começou a ser cantado à média luz

Como o fado começou a cantar-se com o cantador de pé

Alfredo Marceneiro e os seus estilos

Construções Navais, Arsenal do Alfeite

A casa da Mariquinhas

Alfredo Marceneiro e os poetas

Historial artístico

Início da profissionalização no fado

Consagração

As edições discográficas de Alfredo Marceneiro

Aposentação

Alfredo Marceneiro e a imprensa

Marceneiro e a televisão

Saudades

Alfredo Marceneiro e os seus descendentes

A Noite é o Dia de Alfredo Marceneiro

Homenagem de Lisboa

Livro de Oiro - Excertos

O fado de luto

Homenagens póstumas

Centenário

Lisboa 94

Recordações